quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Série Orisás: Omolu, senhor do mistério

Uma frase que marcou minha vida foi “Omolu é o orisá que carrega a doença sem deixar que ela encontre seus filhos”, e assim é esse Orisá, um dos mais enigmáticos do Candomblé. Sua palha encanta e guarda o mistério da vida e da morte, guarda uma rica liturgia, que é em parte revelada no Olubajé, o banquete do rei.
Omolu também é ligado a terra, ele envolve a semente para que ela semeie e dê grãos para alimentar seu povo. Rigoroso, mas amigo, Omolu está presente em todas as iniciações, pois é sobre uma esteira que repousa os iyáwòs. Com suas palhas são feitos também os ikan, entrekan, kelè, saorò e o mokan, símbolos importantíssimos no Candomblé e que guardam a segurança espiritual do noviço. O senhor da doença é também chamado de Rei, mas não de riquezas materiais e sim de honra, gentileza e compaixão, chamado carinhosamente de "médico dos pobres". 
Amigo e pai presente para seus filhos, que em sua maioria chegam na religião por motivos de doença, a ele atribuo muitas curas que são realizadas na casa de axé, por isso também chamamos de dono do corpo, pois em conjunto com o Bara estabelece o equilíbrio físico, e a pipoca, o durubú, lhe pertence e é usado em na maioria dos ebós de saúde. 
Omolu nasce de Nánà, mas é Yemonjá que cuida de suas feridas e o educa, ensinando-o a cura e ao lado do seu irmão Osanyin cria remédios para ajudar a humanidade. Companheiro de Iyèwá, era na sombra de Iroko que Omolu descansava após uma longa trajetória, onde contava ao seu irmão mais novo Òsùmàrè, suas memórias e mistérios, tendo com ele um laço forte de amizade. 
Muito asé e que Omolu sempre te proteja!

Sacerdócio – Um eterno caminho de aprendizado

Acredito que como a maioria dos lideres religiosos, o sacerdócio se manifestou muito cedo na minha vida, uma pré-disposição que foi observada e orientada ainda na infância, pois tive a sorte de nascer em uma família espiritualista e em meio ao Candomblé, Jurema e Umbanda, aprendi a amar e respeitar os Orixás, os Mestres e as Entidades.
Não foi um caminho fácil, principalmente pelo preconceito que no inicio da década de 90 era ainda mais forte que nos dias atuais e a adolescência foi um dos períodos mais difíceis, pois além dos dilemas básicos da idade, ainda tive que enfrentar separação dos meus pais, morte da nossa Iyálorixá e dificuldades financeiras, mas consegui vencer e agradeço pelos cinco anos, dos treze aos dezoito de idade. Considero um período de treinamento intensivo que me ensinou o valor do trabalhado, aliás, tive meu primeiro aos quinze anos de idade, como designer gráfico e também nunca parei de estudar.
Aos vinte anos me tornei pai de um lindo menino e também líder espiritual, não havia iniciado ainda ninguém, mas já cuidava de pessoas e atendia com o jogo de tarô, o que ajudou muito como ser humano e também a construir boas amizades. Nesse período também mudei de axé, ou seja, me integrei a uma nova família espiritual, um tempo de aprendizado e descobertas, onde o Candomblé foi ficando ainda mais forte na minha vida e anos mais tarde abandonaria meu trabalho no setor administrativo de uma multinacional para me dedicar de forma integral ao Orixá, no início senti muito medo, porém Oxossi, meu pai, nunca me abandonou ou me negou a realização de um sonho.
Olhando para trás percebo que tudo foi muito bem planejado por Olorun, dei um passo de cada vez, venci cada etapa e fui me construindo como pessoa e cada problema resolvido é um “bloquinho” na edificação do meu Eu. O sacerdócio é um dom para quem veste a camisa e uma maldição para quem foge de responsabilidades, afinal, cada passo que damos, maior é o compromisso com o divino, ou seja, a escolha é nossa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Tempo e o Orisá

Agimos como se tivéssemos todo tempo do mundo, como se nunca fossemos morrer, mesmo sabendo que um dia Iku chegará e nos levará. O candomblé é baseado nas forças da natureza, no principio e no fim e aprendemos que não há porque ter medo da morte, devemos respeitá-la e sendo inevitável, nos preparar e valorizar cada dia, cada segundo, nada de prender sua vida a guerras sem sentido, rompa a casca, rompa a barreira do orgulho e seja feliz. 

O tempo é primordial para a evolução da alma, sem ele, sem vida e morte, estaríamos até hoje nas cavernas, entediados, pois mesmo que eu queira viver muito ainda, acredito que não há nada mais deprimente que viver para sempre. O Orisá e o tempo caminham juntos, olhe quantas adaptações o culto a Orisá sofreu e mesmo entre tantas guerras, escravidão, se perpetuou e hoje somos negros, brancos, asiáticos, europeus, ajoelhados perante ao sagrado, não é mágico? Será que se fosse uma mentira, teria chego até hoje?

Valorize seu tempo, viva plenamente e não tenha medo amar, além da inveja, o pior “contra-axé” é a frustação, é o arrependimento, isso mina a vida, te diminui. E a opinião dos outros? É dos outros, já vivi tempo suficiente para entender que escutar é diferente que seguir, é sábio abaixar a cabeça para ouvir um conselho, uma crítica construtiva, mas será uma tolice deixar que fazer, de crescer, de melhorar, porque alguém, que muitas vezes nem te conhece direito, dizer que você está errado e criar em seu ori(mente), barreiras.

Ajoelho para o tempo, mas cultuo Orisá, esse sim é eterno!

Grande abraço,

Babá Diego de Odé


terradosorixas.blogspot.com.br

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Série Orisás: Odé - A fome do caçador, a dor da caça

(Textos baseados naquilo que vi e vivi)
Senhor da caça como seu próprio nome já demonstra, Odé(caçador), tem seu culto muito difundido no Brasil, e é presente em todas as nações africanas. É senhor da flora e da fauna, da fartura e protege aqueles que ajudam a estruturar a sociedade e buscam evolução, os pensadores, os ambientalistas, os professores, os veterinários, os agropecuários e etc. Um fato muito interessante é que Odé protege tanto o caçador quanto a caça, costumo explicar aos meus filhos que ele sente a fome do caçador e a dor da caça abatida, por esse motivo as mortes e sacrifícios desnecessários provocam a ira desse Orisá. 
A Odé ou como também é chamado, Oxossi, título que recebeu na famosa ítan(lenda) onde mata o grande pássaro que apavorava o povo de Ketu. É patrono das nações jeje-nagô, aliás, hoje nossa nação Ketu, recebe esse nome pela boa fama e prosperidade que tinham as casas onde Odé era patrono ou fundador. Outro ponto que demonstra sua liderança e na ítan de Odé e Osún, encontro que resultou no nascimento de Ològúnedé, que nos faz refletir sobre a vaidade, representada por Osún, que encanta e cega Odé quando se banha de mel e envolta em folhas, mas é traída pelo seu próprio elemento, a omi(água), ou seja, um líder não pode se deixar levar pela vaidade oculta, assim como os vaidosos serão traídos pela própria essência, porém o enlace gera um fruto, o equilíbrio entre o poder coletivo (Odé) e o individualidade (Osún). 
O senhor da prosperidade é um bom pai, carinhoso, amável e nunca deixa seus filhos perdidos, por mais que os encantos da vida possam nos desvirtuar do caminho, afinal somos sonhadores e muitas vezes até mesmo inocentes, assim como nosso pai Odé foi encantado por Òsónyìn e foi capaz de rejeitar a própria mãe, Yemonjá, mas que foi resgatado por seu irmão Ogún, que no final entende que para manter seu irmão perto teria que deixa-lo livre, como um pássaro.
Odé nos ensina que para ser líder, o OUTRO, sempre vem antes do EU, pois somos parte de um único sistema vivo, como células e cada ação precisa ter um um sentido, assim como cada vida é importante, seja ela a minha, a sua ou de uma folha.
Muito asé,
Babá Diego de Odé
terradosorixas@hotmail.com

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Série Orisás: Ogún



(Textos baseados naquilo que ouvi e vi)

Entre todos os Orisás o que tem personalidade mais marcante é Ogún, sempre determinado, objetivo, com ele não existe duas palavras. Senhor da guerra e do ferro, Ogún veio à terra para desbravar, para abrir caminhos para os demais orisás, ele é o nosso herói, aquele que deu ao homem as ferramentas para o cultivo da terra e construiu a base da sobrevivência, é dele o lar, é dele a agricultura, é dele até mesmo a aliança de metal que simboliza o respeito, a confiança e o amor. 
Pelo carinho e respeito à humanidade, que o guerreiro Ogún também é estreitamente ligado à ancestralidade, sendo guardião do culto à Égùn, afinal seu irmão Esú sempre desafiou a morte ensinando aos povo da terra, ebós e magias para alcançar vida longa, sendo assim Ogún toma a sua frente e guarda os nossos mortos. Todo iyáwò, para nascer para o orisá, precisa de Ogún, pois é dele a navalha, é dele a faca, é dele os utensílios de ferro e aço que usamos na cozinha da casa de asé. Ogún protege aquele que trabalha na estrada, os cabelereiros, agricultores, enfermeiros, cirurgiões e construtores. 
Ogún é o patrono da amizade entre os homens, sempre camarada e fiel, Ogún nunca deixou para trás um companheiro de guerra. Apesar de firme e militar, foi irmão e mestre de Odé, amou Osún loucamente, se apaixonou por Oyá, relação na qual vivia entre tapas e beijos, mas quem lhe acalmava, quem após uma guerra lhe trazia a consciência e sanidade novamente era Yemonjá, sua mãe. Assim são seus filhos, amam aquilo que brilha, são empolgados no que lhe aquecem, mas é na calma, na doçura e serenidade do lar e da família que vivem felizes, por mais que voem, sempre voltam ao forte que guarda seu coração. Ogún é provedor, ama a mesa cheia e não deixa faltar aos seus filhos emprego, pois acredita que sem uma guerra, sem metas, não há evolução. 
Aprenda com Ogún a começar pela base, pelos atos simples e nunca desistir de uma guerra, mas saiba escolher aquelas que devem ser enfrentadas e aquelas que devem ser deixadas para trás, pois não são batalhas, são apenas tempo perdido. 
Muito asé,
Babá Diego de Odé
terradosorixas@hotmail.com

Testemunho de Fé e Agradecimento

Em janeiro de 2016 tivemos um grande Candomblé de Osalá, com muitas obrigações e a casa ficou pequena para receber todos os filhos e amig...